“O Docente das Notas Sexualmente Transmissíveis” – O País

O escritor moçambicano Sérgio Raimundo prepara o lançamento da sua mais recente obra literária, “O Docente das Notas Sexualmente Transmissíveis”, um romance que promete reacender o debate sobre o assédio e outras formas de violência enfrentadas por estudantes, sobretudo mulheres, nas instituições de ensino superior. Em entrevista concedida esta quinta-feira ao O PAÍS, o autor explicou que o livro nasce da necessidade de dar visibilidade a uma realidade frequentemente discutida nos bastidores, mas raramente enfrentada de forma aberta.

Segundo Sérgio Raimundo, a obra reúne um conjunto de histórias inspiradas em testemunhos recolhidos durante uma investigação realizada em várias universidades moçambicanas. Embora assuma a forma de ficção, o autor garante que a narrativa assenta em experiências reais relatadas por estudantes que aceitaram partilhar episódios de sofrimento vividos ao longo do percurso académico.

“O que está neste livro tem uma base factual. A literatura entra para transformar essas vozes numa narrativa, mas as histórias existem e continuam a acontecer”, afirmou.

O escritor descreve o romance como uma narrativa polifónica, construída a partir de diferentes experiências, mas contadas por um único narrador: um docente viúvo que, ao recordar diversos episódios, conduz o leitor pelos dramas vividos dentro da universidade. A opção narrativa, explicou, procura evitar uma leitura limitada apenas às vítimas, permitindo também compreender o papel, os dilemas e as responsabilidades dos docentes num fenómeno que considera complexo.

Durante a conversa, Sérgio Raimundo rejeitou a ideia de que o assédio sexual nas universidades seja um problema desconhecido. Para si, trata-se de uma realidade amplamente conhecida, mas tratada “em off”, devido ao prestígio social de muitos dos envolvidos e ao receio de comprometer a reputação das instituições de ensino superior.

Na sua perspectiva, muitas universidades produzem conhecimento científico sobre esta problemática através de teses e dissertações, mas esses estudos acabam por permanecer dentro das bibliotecas académicas, sem impacto suficiente na sociedade. Por isso, defende que as instituições devem assumir igualmente o papel de questionar e combater a violência que se produz no seu interior, em vez de concentrarem a atenção apenas nos problemas externos.

Ao longo da entrevista, o autor revelou que foi profundamente marcado pelos testemunhos recolhidos durante o processo de escrita. Disse ter ouvido histórias de mulheres actualmente bem-sucedidas, mas que carregam experiências traumáticas vividas durante a formação universitária.

Para o escritor, o diploma conquistado por muitas estudantes esconde um percurso de sofrimento silencioso, marcado por pressões, chantagens e diferentes formas de abuso que raramente chegam ao conhecimento público. A obra procura precisamente romper esse silêncio e transformar a literatura num espaço de reflexão social.

Entre as questões levantadas no romance está também a alegada existência de redes informais entre alguns docentes para pressionar estudantes que recusam ceder a propostas de natureza sexual. Sérgio Raimundo afirmou que ouviu relatos sobre práticas deste género e considera que estas denúncias exigem um debate sério por parte da sociedade e das próprias universidades.

“O corpo da mulher não pode transformar-se numa extensão do currículo académico”, defendeu, sublinhando que muitas estudantes entram na universidade apenas com o objectivo de se formarem, mas acabam confrontadas com situações que atentam contra a sua dignidade.

O escritor considera igualmente necessário compreender as razões por detrás da desistência de muitas jovens do ensino superior, defendendo que nem todos os abandonos se explicam por dificuldades económicas ou académicas. Para ele, é indispensável olhar para o impacto que diferentes formas de violência exercem sobre a permanência das mulheres nas universidades.

Quanto à recepção da obra, Sérgio Raimundo revelou que a fase de pré-venda superou as expectativas. Segundo explicou, cerca de 90 por cento dos exemplares vendidos antecipadamente foram adquiridos por mulheres, um sinal que interpreta como demonstração de identificação com o tema abordado. Acrescentou ainda que docentes universitários também têm adquirido o livro, incluindo um professor que comprou dez exemplares.

Depois do lançamento, o autor pretende apresentar a obra em várias universidades moçambicanas, procurando levar a discussão para os espaços onde, diz, o problema continua a existir. Embora já tenha convites para apresentações em Portugal e Espanha, Sérgio Raimundo afirma que a sua prioridade continua a ser Moçambique.

“Posso viver fora do país, mas escrevo para Moçambique e para o povo moçambicano”, afirmou, acrescentando que encara a literatura como um instrumento de intervenção social e de defesa daqueles que considera não terem voz.

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