O agravamento das crises climáticas, ambientais e económicas continua a aumentar os níveis de insegurança alimentar em Moçambique e em vários países africanos, comprometendo os esforços de combate à pobreza e colocando em risco a soberania alimentar das nações.
O alerta foi lançado pelo secretário de Estado do Ensino Superior, Edson Macuácua, durante a abertura do XI Congresso Internacional de Agroecologia, que decorre na província de Gaza.
Falando perante investigadores, académicos e especialistas nacionais e estrangeiros, Macuácua destacou que milhões de pessoas continuam a enfrentar dificuldades no acesso a alimentos nutritivos, situação agravada pelos efeitos combinados das alterações climáticas e das fragilidades dos sistemas de produção agrícola.
“Crise climática, ambiental, económica e social. Milhões de pessoas continuam a enfrentar dificuldades de acesso a alimentos nutritivos, gerando a insegurança alimentar e fome, o que agudiza a pobreza, esvaziando o sentido de soberania”, afirmou.
O governante advertiu ainda que a fome não deve ser encarada como um fenómeno inevitável, defendendo mudanças profundas nos modelos de produção e distribuição alimentar.
“Não podemos continuar a conviver com a narrativa de que a fome é uma fatalidade natural. A fome é resultado de um sistema alimentar industrial extrativista e mercantilizado, focado no lucro de poucos e na destruição de muitos”, declarou.
Segundo Macuácua, a agroecologia apresenta-se como uma alternativa sustentável para enfrentar os desafios impostos pelas alterações climáticas, promovendo simultaneamente a protecção ambiental, a produção de alimentos saudáveis e o fortalecimento das comunidades rurais.
O secretário de Estado falava à margem do XI Congresso Internacional de Agroecologia, evento que decorre pela primeira vez em solo africano e reúne mais de 200 participantes e cerca de 60 oradores provenientes de dez países.
Durante o encontro, especialistas destacaram os desafios específicos enfrentados por Moçambique no domínio da gestão dos recursos hídricos. O director-geral do Instituto Superior Politécnico de Gaza (ISPG), Mário Tauzene, sublinhou a vulnerabilidade do país aos fenómenos climáticos extremos.
“O distrito de Chongoene, em particular, a província de Gaza e Moçambique no geral, em alguns momentos sofre de fome devido ao excesso de água. Em outros momentos sofre de fome devido à escassez de água. Temos que encontrar as melhores formas de domesticar, armazenar e utilizar a água”, defendeu.
Especialistas internacionais presentes no congresso também apelaram à valorização dos recursos naturais e à adopção de modelos agrícolas mais sustentáveis. Xavier Fernandez, da Universidade de Vigo, em Espanha, considerou que o País dispõe de condições favoráveis para alcançar maior autonomia alimentar.
“O que tem que fazer Moçambique, como qualquer outro País, é aproveitar as vantagens comparativas e os recursos naturais e de capital que tem, que são muitos, para a sobrevivência do seu povo”, afirmou.
Por sua vez, Emma Siliprandi, da Universidade da Andaluzia, defendeu uma aposta mais consistente na agricultura ecológica como instrumento para alcançar a soberania alimentar.
“Se essa soberania alimentar se consegue, seria o principal sucesso da política económica, da política agrária e do povo de Moçambique. É preciso acreditar na agricultura ecológica, parar de usar fertilizantes químicos e agrotóxicos”, sustentou.
O XI Congresso Internacional de Agroecologia prossegue até quinta-feira, reunindo investigadores, docentes, estudantes e profissionais de diversas áreas para debater soluções inovadoras relacionadas com a segurança alimentar, a sustentabilidade agrícola e a resiliência climática.
O evento coloca Moçambique no centro das discussões internacionais sobre agroecologia e reforça o papel da investigação científica na procura de respostas para os desafios alimentares e ambientais que afectam o continente africano.
